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Veja entrevista do Presidente do IBDE, Prof. José Augusto de Morais. Ele fala que a formação de pessoas "produtivas e saudáveis" exige a opção pela transparência, a aceitação da democracia da informação e de uma rotina ética. E que isso pode ser obtido com a ajuda da tecnologia.
Ao contrário do que se poderia pensar, equações matemáticas e figuras geométricas são invocadas, há séculos, para explicar a alma humana. Em The Assayer, seu festejado livro de outubro de 1623, o físico, matemático, astrônomo e filósofo Galileu Galilei (1564-1642) enunciou:
"A Filosofia está escrita neste grande livro - quero dizer o universo - que fica permanentemente aberto à nossa contemplação, mas não pode ser entendido a menos que alguém primeiro aprenda a compreender a linguagem e a interpretar os caracteres em que está escrito. [Este livro] É escrito na linguagem da matemática e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível compreender uma única palavra dele; sem isso, é uma caminhada em um labirinto escuro".
Trezentos e oitenta e seis anos depois dessa advertência, a depressão econômica global lançou os principais executivos em um novo labirinto escuro. O crédito escasseou, importantes instituições financeiras foram empurradas ao limiar de suas forças, montadoras estão de joelhos e a necessidade de cortar custos produz desempregados mesmo entre os profissionais capacitados - acarretando uma onda de dramas pessoais.
O psicanalista e consultor de empresas José Augusto de Moraes, um paulista de Bauru com formação econômica nos Estados Unidos, recorre às modernas ferramentas de gestão, estruturadas sobre softwares sofisticados - evolução direta dos modelos da Álgebra e da Geometria de Galileu (nome, hoje, de uma das principais indústrias de equipamentos eletrônicos da Itália) -, para garantir: somente a tecnologia, com a sua propriedade de gerar transparência e permitir a prevalência da ética, pode aliviar gestores e líderes empresariais da angústia a que a crise os submete.
"Parece incrível", observa Moraes, "mas estamos de volta aos axiomas centrais de Nietzsche que, na segunda metade do século XIX, alertou sobre a necessidade de o homem conviver com a incerteza e para o fato de que a verdade é devastadora". Formado na Escola Brasileira de Psicanálise, José Augusto de Moraes se especializou em terapia cognitiva para modelagem, coaching e mentoring de executivos.
Graduado em Finanças pela Bolsa de Valores de Nova York, e em Administração de Empresas com ênfase em Psicologia (aculturamento e modernização de empresas com base no conceito de Qualidade Total) pelo Success Motivation Institute, de Waco, Texas (EUA), ele é autor de diversos best sellers dirigidos aos gestores de organizações, como A coragem de mudar (Ed. Record, Rio, 1995), que já superou a marca dos 100 mil exemplares.
Professor convidado do MBA da Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, Moraes preside o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Empresarial e tem rotina intensíssima, balizada por uma carregada agenda de palestras e por contratos de assessoramento pessoal e profissional a líderes empresariais. A seguir, a entrevista exclusiva concedida por Moraes à Psique Ciência & Vida, nas dependências do Hotel Renaissance, em São Paulo
"A tecnologia não tem al ma, não é corrrruptível e, dessa maneira , é o único mecanismo capa apaz de resgatar a ética"
Psique - Que tipo de pessoa resistirá melhor a este momento de incerteza sobre o que fazemos e o futuro que nos aguarda? Moraes - Pessoas produtivas, no plano profissional, e saudáveis, no plano pessoal. Isso pode parecer simples de se alcançar, mas não é. Há gestores de resultados expressivos no ambiente de trabalho que não são seres saudáveis, nem em termos mentais nem sob o aspecto orgânico. O executivo estressado é, sem dúvida, um executivo despreparado. E há pessoas que rotularíamos comumente como "de bem com a vida", mas que não conseguem produzir nada de importante.
Psique - A Segunda Guerra Mundial exerceu influência sobre a introdução do contexto ambiental na Psicologia? Moraes - Depois da Segunda Guerra Mundial, a teoria da Gestalt deu uma leitura diferente à questão do ambiente, apesar de ainda estar no bojo da Psicologia social. Enfocou o problema do espaço, da métrica e da geometrização. Por analogia, introduziu o conceito de campo da física para explicar as condutas e as formas de desenvolvimento do comportamento social. Nesse período, o psicólogo alemão Kurt Lewin fez uma proposta de abordagem, que chamou de "pesquisação". Sua tese é a seguinte: se não é possível fazer Ciência sem experimento, então é preciso fazer da vida social um laboratório. Só que a intervenção que deveria ser estudada, segundo ele, que se interessava principalmente pelo comportamento político, com relação aos problemas do autoritarismo e formação dos núcleos e influências das lideranças democráticas nas dinâmicas dos grupos -, teria como princípio a legitimidade ética.
Psique - Como o chão fugiu tão repentinamente aos executivos de hoje? Há vários deles em sérias dificuldades para lidar não apenas com o impacto da crise nos negócios, mas também com outras consequências desse cenário. Muitos se deprimem por causa dos cortes de pessoal que são obrigados a fazer... Moraes - É preciso entender o quadro dentro de um contexto mais amplo, o da grande revolução que aconteceu. Antigamente o gestor tinha um tipo de vida mais adequado à sua existência como ser humano: ele almoçava e jantava em casa, tinha tempo para a família e para o lazer. Na empresa mantinha as portas fechadas, sem ter muita necessidade de falar com as pessoas. Ou, em palavras mais claras, ele podia se dar ao luxo de errar com total tranquilidade. O ícone dessa geração foi Henry Ford, que uma vez disse: "pintem o automóvel da cor que vocês quiserem, desde que seja preto". Era o modelo mental e teimoso da Era Industrial.
Mas então veio a Tecnologia da Informação, que derrubou as portas e até as paredes dos gabinetes dos executivos. Ela não trouxe só a velocidade da informação, trouxe também a velocidade dos eventos. O líder se viu cercado por milhões de informações e, o que é pior, despreparado para manipular em seu benefício, esse fluxo gerado pela tecnologia. Acredite: há gestores que, até hoje, desprezam o uso do MSN. Alguns pelo simples fato de que não sabem usá-lo. Dessa forma, um executivo passa a gerenciar o seu negócio com base em uma intuição cega. Ora, é fácil entender que isso lhe dá uma sensação de impotência.
Psique - Não basta mais ter raciocínio cartesiano, claro, e trabalhar duro... Moraes - Não basta. A gestão intuitiva de que tantos se vangloriam precisa ser também inteligente.
Psique - Parece difícil acreditar que haja um executivo que abomine a tecnologia... Moraes - Mas há, e não por uma razão em especial, mas por um conjunto de vários motivos diferentes...
Psique - Por exemplo... Moraes - Falta de hábito. Pode parecer algo relativamente fácil de mudar, não? Mas a resposta é: não, não é algo assim tão simples de mudar. Mais grave: a tecnologia produz transparência, e há gestores que não estão muito interessados nisso. Atualmente os portais democratizaram a informação em um nível que muitos executivos, durante o seu processo de tomada de decisão, se sentem diretamente vigiados. Isso os incomoda muito, os deixa inseguros, irritadiços, predispostos ao erro e, até mesmo, a cometer uma grave injustiça.
Psique - O conhecimento deixou de ser um gueto de poder... Moraes - Na verdade esses líderes se sentem muito mais incomodados do que isso. Eles experimentam a sensação de uma perda total de poder. Mas esse não é, ainda, o maior problema.
Psique - Não? Moraes - Não. O maior problema é que a tecnologia não tem alma, não é corruptível e, dessa maneira, ela é o único mecanismo capaz de resgatar a ética. Exemplo disso é a mudança no patamar de qualidade do processo eleitoral brasileiro, depois que foram introduzidas as máquinas que computam o voto.
Psique - O senhor falou da necessidade de o gestor se acostumar às facilidades proporcionadas pela tecnologia, sobre ele aceitar a democratização da informação sem se sentir vigiado, e a respeito dele se enquadrar em um mundo que é, ou será, necessariamente mais ético. A tecnologia ainda pode influenciar no comportamento desse executivo de outra forma? Moraes - Sim, pode. Entre as décadas de 1960 e de 1980, todas as teorias de Peter Drucker [filósofo e economista austríaco falecido em 2005, considerado pai da gestão moderna] sobre qualidade da gestão empresarial eram lindas, mas não havia como mensurar os seus efeitos. Agora há. Há cerca de 15 anos os professores Norton e Kaplan, da Universidade de Harvard, estabeleceram o BSC [sigla em inglês de Balanced Scorecard], uma metodologia que funciona como um modelo de avaliação da performance empresarial e que agora já é utilizada como uma metodologia de gestão estratégica. O resumo disso é o seguinte: você não pode gerenciar o que não consegue medir.
"A Psicanálise caminha na vertente do resgate da singular idade, da individual idade, do resgate ético da personal idade"
Psique - Estamos falando de quantas condicionantes para a sobrevivência serena do executivo na crise? Moraes - Eu nomearia três condicionantes básicas: transparência, democracia da informação e ética. O gestor que não estiver disposto a operar nesse cenário não terá condições de encarar o futuro com tranquilidade. Muitos já estão cientes de que esse é o mundo que vem por aí, ao menos nos lugares mais civilizados, mas ainda não estão convencidos a agir dentro desses padrões. Aliás, ainda nos anos de 1950, ao estabelecerem as bases da filosofia kaizen, sobre qualidade empresarial, os japoneses chamaram a atenção para o fato de que estar consciente da necessidade de mudar, nem sempre quer dizer que você está convencido a fazer a mudança.
Psique - Pensei que nessa entrevista o senhor fosse enfatizar o fato de as ferramentas de gestão serem menos eficientes nas mãos de pessoas menos virtuosas. Achei que fossemos falar mais da condição humana... Moraes - Mas é disso que estamos falando! Não se iluda: a mente do executivo processa os raciocínios conceituais por meio de padrões operacionais, isto é, das regras ou valores que lhe servem no ambiente de trabalho.
Psique - O que é isso? Uma estratégia que o senhor concebeu a partir de sua qualificação como psicanalista? Moraes - [risos] A Psicanálise caminha na vertente do resgate da singularidade, da individualidade, do resgate ético da personalidade, e isso é muito útil, sim, para explicar e amparar o comportamento dos executivos nessa fase de incertezas. Assim como percebemos claramente que as empresas estão na fase de personalizar os seus produtos, ofertando artigos dedicados a cada nicho de consumo, é preciso ter em mente que o ser humano não se enquadra na categoria das commodities. Ele é singular, possui as suas idiossincrasias, as suas complexidades.
Psique - Os analistas econômicos dizem que a crise foi gestada nas ações secretas de executivos irresponsáveis, boa parte deles muito jovem, que no mercado imobiliário norte-americano aceitaram hipotecas que jamais poderiam ser resgatadas e deixaram as instituições de crédito sem lastro financeiro. Gente que agiu sem a menor responsabilidade ou remorso... Moraes - Eu estava nos Estados Unidos no fim do ano passado, quando essas e outras verdades foram descobertas. Eram gestores viciados na sua maneira de pensar. Eles geriam os seus negócios como pessoas que estavam, apenas, ganhando no jogo. Hoje existem mais leis e mais regras tentando coibir as operações a descoberto que eles faziam, e também nisso a tecnologia é essencial. Mas o importante é começarmos a raciocinar sobre o que aconteceu com o nosso padrão de comportamento, para tirarmos as lições adequadas desse episódio. Saímos de um cenário estável, consistente, para um mundo caótico.
Estamos caindo na cratera de um vulcão. Isto é, afundando sem conhecer exatamente a distância que nos separa do fundo, e ainda sujeitos a uma nova erupção... Essa sensação de instabilidade gera ansiedade e medo. Somos convidados a um retorno à leitura de Nietzsche. Ele dizia que precisamos conviver com a incerteza e que a verdade é devastadora. Mas ele também nos ensinou, com a sua própria experiência de vida, que é preciso ter calma para, de alguma forma, tentar encontrar proveito em uma situação intensamente adversa. Nietzsche sentia forte atração por Louise Salomé.
Quando soube que ela se deixara seduzir por um de seus melhores amigos, reagiu dizendo que ela, ao menos, o poupara de dois desconfortos: o de mentir e o de deixar de ser ele mesmo. Porque, como sabemos, a relação com o ser amado nos exige, vez por outra, uma mentira e alguma forma de deixarmos de fazer aquilo que gostamos ou queremos, para ceder aos desejos do outro. Não tenho dúvidas de que sairemos da crise atual mais atentos aos procedimentos de executivos inescrupulosos.
Depois da grande depressão de 1929, o mundo passou quase 70 anos sem experimentar uma crise como aquela. E os economistas da época não dispunham das ferramentas de análise e controle que temos hoje. Acredito que possamos passar por um novo período de várias décadas a salvo da irresponsabilidade de maus gestores como os que foram descobertos no ano passado. Mas, para isso, será sem dúvida importante que os nossos executivos aceitem o ambiente tecnológico balizado pela transparência, pela democracia da informação e pela ética.
Psique - Não parece demais, para você, esperar desses executivos uma mudança tão radical de comportamento? Moraes - Não espero mudança radical alguma. Desejo apenas poder contribuir para um processo evolutivo normal, baseado em substituição de convencimentos. Há dez anos ninguém acreditaria que podemos evitar o fumo em locais públicos da cidade mais importante da América do Sul. E, no entanto, isso é possível. Aliás, não é só possível: as pesquisas mostram que também é desejado. Não apenas em São Paulo, mas em várias metrópoles brasileiras. O que devemos perseguir é o mesmo processo de substituição ou superação de condutas. E isso se faz com a opção pela transparência, num ambiente democrático e de respeito à ética.
Psique - Mesmo enquanto despencamos na cratera do vulcão? Com os executivos inseguros, temerosos de arriscar qualquer novo procedimento? Moraes - Precisamos fazê-los produtivos, não se esqueça. Essa necessidade é que impede o imobilismo deles. Quanto a tê-los também saudáveis, isso está diretamente ligado ao pano de fundo da depressão econômica, que não ajuda. Mas essa é uma realidade inescapável. Há, contudo, uma fonte de energia que não nos cabe desprezar: a do inconsciente do próprio homem, que alguns especialistas chamam de a sua "verdadeira força interior". A Psicanálise pretende ser a ciência do inconsciente, a obra freudiana tem mais de um século, e a verdade é que ainda estamos, todos os dias, analisando reações humanas novas ou mesmo derivadas de outras que são conhecidas. É preciso observar também que, até agora, estamos falando de um padrão de comportamento de gestores mais comum aos líderes do Ocidente, e é preciso prestar muita atenção às novidades comportamentais que nos chegam do Oriente.
Psique - Consequência do papel crescente da China no mercado mundial... Moraes - Exatamente. Hoje já existem, tanto nos Estados Unidos quanto na União Europeia, várias equipes dedicadas a investigar os padrões comportamentais dos gestores chineses. Padrões que não são regidos apenas por suas limitações e obrigações legais, ou mesmo de atuação política, mas, sobretudo, por suas características de processamento mental. Evidentemente,os procedimentos desses executivos precisam encontrar compreensão e correspondência de parte dos subordinados. E não temos, no mundo ocidental, massas trabalhadoras com o comportamento do operariado asiático. Além disso, alguns ensinamentos da filosofia kaizen envelheceram rapidamente
"Os orientais apresentam grande importância às suas convicções religiosas e aos ensinamentos que elas proporcionam"
Psique - Por exemplo. Moraes - O de que ao aumento de produtividade de uma corporação é indispensável que os colaboradores "vistam a camisa" da organização. Isso continua válido, mas já não tem tanta importância. A Tecnologia da Informação sobrepujou a tudo, neste momento. Especialmente dentro das corporações.
Psique - Voltando ao campo comportamental, o senhor não acha que as novidades que vêm da China podem ter sido um tanto vulgarizadas pelo marketing que se faz, hoje, com assuntos como meditação, estilo de vida zen e outros "produtos" dessa linha? Veja a onda dos chamados "tratamentos orientais" oferecidos por resorts destinados aos milionários no Ocidente... Moraes - Há muito embuste nessa propaganda, mas também um fundo de verdade que merece e já está sendo mais bem investigado.
Psique - Do que é constituído esse fundo de verdade? Moraes - De padrões integrados até mesmo pelos famosos tratamentos que relaxam e, supostamente, "alinham mente e corpo". O problema é que o marketing ocidental enfatiza o acessório na cultura chinesa, e isso deixa em segundo plano o fundamental. Explico: os orientais emprestam grande importância às suas convicções religiosas e aos ensinamentos que elas proporcionam. Isso os ajuda a preservar certas palavrinhas bem conhecidas também no vocabulário ocidental e que, apesar disso, andam um pouco esquecidas: honra, vergonha, compromisso, alma, coração.
É evidente que isso torna os gestores orientais mais resistentes a certos procedimentos inovadores. Se você preferir, mais ortodoxos, ou conservadores. Mas os padrões comportamentais deles suscitam, para nós, questionamentos aos quais não devemos tentar escapar. Como, por exemplo: é possível gerir um negócio usando também a alma, ou o coração? A mim parece evidente que sim. |